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Professor adapta técnica de produção de monolitos para facilitar ensino e divulgação da ciência do solo

Uma exposição com monolitos preparados pelo professor Walter Abrahão (foto), do Departamento de Solos (DPS) da UFV, tem percorrido o estado com o objetivo de divulgar os solos mineiros. Desde maio, a exposição Solos de Minas, uma iniciativa da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) em parceria com o DPS, já passou pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e fez um grande sucesso com o público do Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, realizado, no mês de agosto, em Natal (RN).

Para que a exposição fosse itinerante, foi preciso desenvolver uma técnica que permitisse o deslocamento das peças com segurança. Até o final deste ano, ela deverá percorrer várias instituições de Minas e uma réplica fará parte de outra exposição permanente do Saguão do Departamento de Solos da UFV.

Para que servem os monolitos?
O Brasil comporta 13 ordens de solos, cada um com várias subordens. Cada região contém características próprias e uma grande gama de detalhes. Para aprender esta ciência, ensiná-la ou avaliar a qualidade dos solos, professores e engenheiros costumam abrir trincheiras ou observar perfis dos solos expostos em barrancos. Estes perfis com cores, linhas e texturas diferentes revelam a fertilidade daquele solo, mostram de que foram feitos, se têm ou não uma boa quantidade de matéria orgânica, de vida em forma de microrganismos, se possuem ou não estrutura compacta, para que servem ou se precisam ser corrigidos. A esta parte da ciência do solo dá-se o nome de pedologia: a técnica de ver diferenças e classificar os vários tipos de solos.

Reconhecer e classificar solos é fundamental para a formação de engenheiros e outros profissionais, mas as viagens de ensino de classificação de solos são dispendiosas e complexas. Por isso, existem os monolitos: pedaços destas trincheiras e barrancos que ficam à disposição de estudantes em universidades e outros centros de pesquisa. Cores, texturas, marcas da presença de animais, pedaços de rochas, areia, todos os detalhes precisam estar presentes ali para revelar características de cada solo.

Ciência e Arte
O trabalho do professor Walter Abrahão lembra o de um escultor que mistura arte e técnica para que uma obra dê certo. O primeiro passo para montar a exposição itinerante foi definir as principais classes de solos presentes em Minas Gerais. O trabalho, protagonizado pela Feam, contou com a ajuda preciosa de pedólogos reconhecidos no estado, como os também professores do DPS João Carlos Ker e Carlos Schaefer. Outros pesquisadores ajudaram a localizar perfis que continham as características principais de cada classe. “Encontrar o melhor perfil é o mais difícil. Passamos dias no campo em busca de um único perfil representativo daquele local. O perfil tem que ser acessível para ser retirado com os cuidados necessários para que não quebre. Dependemos do local e do clima. O solo não pode estar nem muito seco, nem encharcado. Depois de encontrar um bom perfil, às vezes, demoramos dois ou três dias para retirá-lo da trincheira e armazená-lo cuidadosamente em uma caixa de madeira”, conta o professor Walter, ressaltando que a identificação correta da amostra é fruto do conhecimento acumulado sobre pedologia.

Walter Abrahão explica que a principal diferença dos monolitos desta coleção é a espessura das peças, que chega a ser a metade das que são tradicionalmente produzidas. “Nosso objetivo é que a exposição seja didática, mas itinerante, alcançando um público maior em vários locais do estado. Por isso, as peças têm que ser leves e prontas para o transporte com segurança”, explica Patrícia Fernandes, coordenadora do projeto na Feam.

Com as peças coletadas corretamente, o trabalho é de escultura. “Não podemos simplesmente cortar com uma lâmina de solo para chegar aos 2,5 centímetros de espessura. É preciso valorizar os detalhes que estão em toda a peça e isso envolve conhecimento da ciência e sensibilidade para saber mostrar”, diz o professor Walter. O trabalho é feito com pincel fino, a cada centímetro, deixando à mostra pedaços de raiz ou de rocha, canais feito por formigas e outros detalhes que se escondem abaixo da superfície dos solos, mas que revelam sua formação e suas características. A mudança de cores num perfil é muito significativa, mas não basta para a compreensão. Às vezes, um pedaço de carvão diz muita coisa sobre a translocação de material ou sobre a gênese daquele solo. É preciso conhecer os processos químicos, físicos e biológicos de formação do solo para valorizá-los e fazer com que as peças sejam, de fato, didáticas. E como tudo nos solos é dinâmico, o professor conta ainda que, às vezes, é preciso usar reagentes, como o ácido ascórbico, para parar um processo oxidativo que mudaria a cor dos solos e alteraria a demonstração de um processo de formação que se quer mostrar.

As peças da coleção são consolidadas com uma mistura de cola e água e afixadas em molduras para a exposição. Cada peça vem acompanhada de um painel com textos que contam onde as amostras foram coletadas, em que locais do estado ocorrem e quais as características técnicas daquele solo.

Banco de solos
A exposição Solos de Minas é só a parte visível de um trabalho bem mais profundo que começou em 2007, quando a Feam estabeleceu um convênio, coordenado pela UFV, com as universidades federais de Lavras (Ufla) e Ouro Preto (Ufop) e com a Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec MG), para definir os Valores de Referência de Qualidade do Solo (VRQs) para os solos de Minas Gerais. Como os solos são formados pela decomposição de rochas e seus minerais, cada tipo é definido por uma concentração determinada de elementos químicos. Para essa determinação é preciso haver um parâmetro de VRQs. Valores fora do padrão indicam contaminação dos solos e, por consequência, das águas que passam por estes solos. Estes desvios acontecem pela presença de atividades como agricultura e mineração.

Excesso de uso de mercúrio em garimpo de ouro ou abuso de herbicidas em culturas agrícolas, por exemplo, contaminam solos e água, gerando doenças e outros problemas para a região. Sem estas referências naturais (VRQs) é impossível estabelecer punições ou políticas públicas para o bom uso do solo no estado.

A UFV já dispunha de um banco de 270 amostras georreferenciadas coletadas em áreas minimamente antropizadas, mas ainda foi preciso percorrer muitos quilômetros de solo mineiro coletando amostras para compor um Banco de Solos mineiro que hoje está sediado no Departamento de Solos da Universidade. Os dados relativos as quase 700 amostras do Banco subsidiam tecnicamente o gerenciamento de possíveis contaminações de solos no estado, além de serem fontes de pesquisas para diversas instituições.

A parceria da Feam/UFV/Ufla/Ufop/Cetec MG e as viagens de levantamento de solos também resultaram na produção do Mapa de Solos de Minas Gerais na escala de 1:650 mil e em três publicações, lançadas este ano no Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, que definem procedimentos de campo, de laboratório e de tratamento de dados para a determinação de VRQs que podem auxiliar os outros estados que ainda não geraram os seus valores.

(Léa Medeiros)

A exposição itinerante fez parte do XXXV Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, em Natal

A exposição itinerante fez parte do XXXV Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, em Natal

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